Estrela Novais morreu sozinha e com pouco trabalho. Mas foi uma frase dita anos antes que tornou o seu fim ainda mais doloroso

Estrela Novais morreu sozinha e com pouco trabalho. Mas foi uma frase dita anos antes que tornou o seu fim ainda mais doloroso

Quando Estrela Novais morreu, a cinco dias de completar 71 anos, Portugal perdeu um rosto que conhecia há décadas.

Era 8 de março de 2024.

Para muitos espectadores, era impossível não reconhecer aquela voz, aquele rosto e aquele sorriso. Estrela tinha passado pelo teatro, pelo cinema e por dezenas de produções televisivas. Tinha recebido prémios, trabalhado com algumas das principais companhias portuguesas e ajudado a formar novas gerações de atores.

Mas, depois da sua morte, uma colega disse em televisão uma frase que transformou a homenagem numa pergunta desconfortável sobre a forma como tratamos aqueles que durante décadas nos deram tanto.

Ana Bustorff estava no programa “Em Família”, da TVI, quando recordou Estrela.

Começou pela atriz que todos conheciam.

“Desapareceu uma grande atriz com quem eu me estreei.”

Estrela Novais morreu sozinha e com pouco trabalho. Alerta vem de uma amiga  que todos conhecemos - Nacional - FLASH!

Depois falou da mulher.

Da memória do sorriso.

Da colega extraordinária.

E então acrescentou aquilo que doeu mais:

“Só tenho pena que tenha morrido sozinha e com pouco trabalho.”

Não era assim que deveria terminar a história de alguém que começou a representar aos 17 anos.

Mas, para compreender o peso dessa frase, é preciso voltar ao Porto de 1970.

Estrela Novais era praticamente uma adolescente quando entrou no Teatro Experimental do Porto para participar em “Bodas de Sangue”, de Federico García Lorca.

Tinha apenas uma semana de ensaios.

Estava assustada.

Anos mais tarde, numa entrevista, lembraria uma frase dita por um técnico naquela altura: tinham-na “atirado aos leões”.

Não era exagero.

Era uma jovem sem experiência profissional a subir a um palco diante de uma plateia onde estavam atores que ela admirava.

Estrela entrou em cena nervosa.

Representou.

E, quando terminou, aconteceu algo que nunca esqueceu.

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Na plateia estavam Rui Mendes, João Lourenço e Morais e Castro. Depois do espetáculo, foram cumprimentá-la ao camarim.

A jovem de 17 anos que tinha entrado naquele palco a pensar se seria capaz saiu de lá com convites para continuar.

De repente, o teatro deixava de ser apenas um sonho.

Era uma profissão.

E Estrela agarrou-a.

Três anos depois, com apenas 20 anos, ajudou a fundar a Seiva Trupe, no Porto, ao lado de António Reis e Júlio Cardoso.

Não queriam criar apenas mais uma companhia.

Queriam levar teatro a lugares onde praticamente não chegava teatro nenhum.

A companhia percorreu o Norte.

Famalicão.

Trás-os-Montes.

Terras onde, segundo Estrela recordaria mais tarde, havia pessoas que levavam cadeiras de casa porque não existiam lugares suficientes para assistir aos espetáculos.

Havia salas tão cheias que os atores mal conseguiam chegar ao palco.

Era um Portugal muito diferente.

E aquela jovem atriz estava no centro de uma geração que acreditava que a cultura não devia existir apenas nas grandes cidades.

Estrela não se limitou a representar.

Estudou.

Arriscou.

Saiu do país.

Entre 1979 e 1982, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian e estudou encenação em Roma, na prestigiada Accademia Nazionale d’Arte Drammatica Silvio D’Amico.

Trabalhou e aprendeu num ambiente onde encontrou nomes de referência do teatro europeu, incluindo Dario Fo.

Ela própria recordaria aquele período como alguns dos anos mais felizes da sua vida.

Regressou a Portugal com outra experiência.

Outra confiança.

Outra visão do palco.

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Ao longo das décadas seguintes, construiu uma carreira que poucos poderiam considerar pequena.

Trabalhou com o Teatro Experimental do Porto, Seiva Trupe, Teatro da Politécnica, Companhia de Teatro de Almada, A Barraca, Teatro Nacional D. Maria II e várias outras estruturas.

Foi também uma das fundadoras do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, o FITEI.

Vieram os prémios.

Em 1984, foi distinguida como Melhor Atriz de Teatro pela revista “Mulheres”.

Dois anos depois recebeu uma distinção de Melhor Atriz de Cinema atribuída pela revista “Nova Gente”.

E depois apareceu cada vez mais na televisão.

Para muitos portugueses, foi aí que Estrela deixou de ser apenas uma atriz de teatro respeitada e passou a ser alguém que entrava regularmente em casa.

Participou em produções como “Olhos de Água”, “A Ferreirinha”, “Dei-te Quase Tudo”, “Doce Fugitiva”, “Feitiço de Amor”, “Deixa Que Te Leve”, “Dancin’ Days”, “Belmonte” e “Bem-Vindos a Beirais”, entre muitas outras.

Segundo o Jornal de Notícias, chegou a participar em dezenas de novelas, além de filmes e inúmeras peças de teatro.

Havia, no entanto, outra Estrela que muitos espectadores não conheciam.

A professora.

E talvez seja aí que a sua história comece a ganhar outro significado.

Durante anos, Estrela recusou a ideia de ensinar.

Ela queria representar.

Quando lhe diziam que tinha experiência para transmitir a jovens atores, respondia que não era professora.

Até que um convite levou a outro.

Foi à Escola Secundária D. Pedro V, em Lisboa, inicialmente sem grande intenção de ficar.

Ficou.

E descobriu outra paixão.

Durante mais de duas décadas, ensinou expressão dramática, interpretação, movimento e dramaturgia.

Alguns dos seus alunos acabariam por tornar-se atores profissionais.

Outros nunca seguiram a profissão.

Para Estrela, pouco importava.

Ela falava deles como uma espécie de segunda família.

Numa entrevista de 2018, descreveu os alunos como companheiros nos momentos difíceis e disse que ensinar lhe tinha dado algumas das maiores alegrias da vida.

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Há algo quase cruel quando se lêem essas palavras sabendo o que aconteceria seis anos depois.

Porque Estrela conhecia perfeitamente a fragilidade da profissão.

Ensinava-a aos alunos.

Dizia-lhes que os primeiros dez anos eram particularmente duros.

Podiam passar meses sem telefonemas.

Sem contratos.

Sem convites.

Sem saber quando chegaria o próximo trabalho.

“Quem aguenta os dez primeiros anos, aguenta tudo”, dizia.

Mas existe uma realidade sobre a profissão de ator que talvez seja ainda mais dura.

Sobreviver aos primeiros dez anos não garante que os últimos sejam fáceis.

Durante muito tempo, Estrela esteve habituada ao movimento.

Ensaios.

Palcos.

Gravações.

Alunos.

Viagens.

Personagens.

Texto para decorar.

Primeiros dias de filmagens.

Nervos antes de entrar em cena.

Aquele nervosismo nunca desapareceu.

Mesmo depois de décadas de profissão, continuava a sentir medo antes de representar.

Não porque duvidasse do teatro.

Mas precisamente porque o respeitava.

Quanto mais experiência tinha, dizia, maior parecia ser a responsabilidade.

O público já sabia quem ela era.

Esperava mais.

E Estrela queria estar à altura.

Era assim desde aquela primeira noite de “Bodas de Sangue”, aos 17 anos.

A menina assustada tinha envelhecido.

O nervosismo, não.

Talvez por isso seja tão difícil conciliar duas imagens.

De um lado, uma atriz com mais de meio século de carreira.

Do outro, a frase pronunciada depois da sua morte:

“Pouco trabalho.”

Como pode alguém participar em tantas produções, receber prémios, ajudar a fundar uma companhia, formar atores e, ainda assim, chegar ao fim da vida profissional com a sensação de que o telefone toca menos?

Essa pergunta tornou-se impossível de ignorar depois de 8 de março.

Estrela morreu em Lisboa aos 70 anos, cinco dias antes do aniversário.

As primeiras notícias surpreenderam até pessoas próximas da sua trajetória profissional. Júlio Cardoso, que tinha fundado a Seiva Trupe com ela meio século antes, disse à Lusa que tinha falado com Estrela cerca de dois meses antes e não percebera que estivesse doente.

Mais tarde surgiram relatos de que enfrentava um cancro da laringe e se preparava para iniciar tratamentos.

Mas a notícia da morte não revelou apenas uma doença.

Revelou uma solidão.

Foi Ana Bustorff quem a colocou em palavras.

As duas partilhavam uma ligação profissional antiga.

Ao lembrar a colega na TVI, Ana não falou apenas da morte de uma grande atriz.

Falou da maneira como ela terminou a vida.

“É uma perda enorme. A memória que tenho dela é de sorriso.”

E então veio a frase que mudou completamente o tom da homenagem.

Segundo Ana Bustorff, Estrela tinha morrido sozinha e com pouco trabalho.

Depois acrescentou:

“Nascemos e morremos sempre sozinhos, mas há uns que morrem mais sozinhos que outros.”

Ali estava o verdadeiro choque.

Porque Estrela Novais passara a vida rodeada de pessoas.

Plateias.

Colegas.

Alunos.

Equipas técnicas.

Realizadores.

Encenadores.

Câmaras.

Público.

E, mesmo assim, uma das pessoas que melhor conhecia a profissão sentiu necessidade de dizer publicamente que o seu fim tinha sido solitário.

Não era uma acusação contra uma pessoa específica.

Era algo mais difícil de resolver.

Era um alerta.

O aplauso é ruidoso.

O esquecimento é silencioso.

Enquanto um ator está numa novela todas as noites, parece fazer parte da família de milhares de pessoas.

Todos reconhecem o rosto.

Todos sabem o nome da personagem.

Há entrevistas.

Fotografias.

Convites.

Mensagens.

Depois chega o último episódio.

A personagem desaparece.

Surge outra novela.

Outra geração.

Outros rostos.

E aquilo que para o público é simplesmente uma mudança de programação pode ser, para quem vive da profissão, o início de meses sem saber quando voltará a trabalhar.

Estrela sabia disso melhor do que quase ninguém.

E aqui surge o detalhe que torna a sua história particularmente difícil de esquecer.

Em 2018, seis anos antes de morrer, perguntaram-lhe o que significava viver.

A resposta não tinha nada de trágico.

Falou de ouvir pássaros.

De crianças a correr.

Do mar.

Da saúde.

Dos afetos.

Dos amigos.

De descobrir algo novo todos os dias.

E terminou com uma frase que hoje parece ganhar outro peso:

“Mesmo em momentos maus, nunca desisto.”

Depois explicou porquê:

Porque acreditava que também somos necessários aos outros.

É aqui que toda a história muda.

Estrela não foi apenas uma atriz que queria continuar a trabalhar.

Era uma mulher que tinha passado décadas dizendo, através das próprias escolhas, que uma pessoa precisava sentir que ainda tinha algo para oferecer.

Foi por isso que ensinou.

Foi por isso que falava dos alunos com orgulho.

Foi por isso que continuava nervosa antes de entrar em cena.

Foi por isso que, mesmo depois de tantos anos, ainda tratava cada trabalho como se tivesse de provar que merecia estar ali.

Talvez seja também por isso que a expressão “com pouco trabalho” seja tão dolorosa.

Não estamos a falar de alguém que tinha desistido da profissão.

Estamos a falar de alguém cuja identidade foi construída no fazer.

Representar.

Ensinar.

Criar.

Partilhar.

Na despedida, Ricardo Castro, que tinha sido seu aluno e se tornou ator, revelou outra coincidência devastadora.

Estava a preparar uma carta para enviar a Estrela no aniversário, a 13 de março.

Ela morreu no dia 8.

A carta não chegou.

“Devo-te tanto”, escreveu ele ao despedir-se.

Cinco dias.

Foi essa a distância entre a morte e o aniversário.

Entre uma carta preparada e uma carta que já não poderia ser recebida.

No funeral, o cortejo passou pela Escola Secundária D. Pedro V.

Era ali que Estrela ensinara durante anos.

Ali estiveram gerações de jovens a aprender com uma mulher que, quando tinha apenas 17 anos, também fora lançada para um palco sem saber exatamente o que iria acontecer.

O percurso fazia sentido.

Da jovem atriz à professora.

Da aluna assustada à mulher que preparava outros para enfrentarem os mesmos “leões”.

Talvez essa seja a verdadeira medida de uma carreira.

Não quantas vezes alguém aparece na televisão.

Mas quantas pessoas continuam a carregar algo que aprenderam com ela depois de as câmaras se apagarem.

Ana Bustorff tinha razão numa coisa essencial.

Desapareceu uma grande atriz.

Mas a parte mais incómoda da sua homenagem não foi o elogio.

Foi o aviso.

Porque é muito fácil homenagear alguém quando já não pode ouvir.

É fácil escrever “eterna”.

É fácil publicar uma fotografia.

É fácil recordar uma personagem.

Mais difícil é telefonar antes.

Convidar antes.

Visitar antes.

Dar trabalho antes.

Dizer “ainda precisamos de ti” enquanto a pessoa ainda está aqui para escutar.

Estrela Novais passou mais de 50 anos a fazer precisamente isso pelos outros.

Representou para plateias.

Ensinou jovens.

Ajudou a construir companhias.

Levou teatro para lugares onde quase não existia.

Deixou personagens na memória de quem a viu.

E dizia que não desistia porque acreditava que cada um de nós era necessário para alguém.

Talvez seja por isso que a sua história não deva terminar apenas com a doença que a matou.

Nem com a solidão descrita por uma amiga.

Deve terminar com a pergunta que ficou para todos os que ouviram aquela homenagem:

Quantas “Estrelas” ainda estamos a aplaudir apenas na memória, quando poderíamos valorizá-las em vida?

Porque o pior silêncio não é aquele que fica depois de um artista morrer.

É o silêncio que começa enquanto ele ainda está à espera que o telefone toque.