Eu entrei na festa de casamento deles segurando um bolo que eu mesma fiz, e vi minha melhor amiga de mãos dadas com o meu ex, rindo daquele jeito que eu achava que era só meu. Ela me convidou de…

Eu entrei na festa de casamento deles segurando um bolo que eu mesma fiz, e vi minha melhor amiga de mãos dadas com o meu ex, rindo daquele jeito que eu achava que era só meu. Ela me convidou de...

Ela queria me ver chorar na frente do salão inteiro. Eu, de pé no meio daquela festa, com o microfone na mão, pensei: vocês não fazem ideia do que estão prestes a ouvir. Se eu contar só o fim, você não vai sentir o tamanho da coisa. Então deixa eu voltar um pouco.

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O Rodrigo tinha herdado do pai uma fábrica de peças. A Letícia, minha melhor amiga, começou a dar em cima dele exatamente na semana em que ficou sabendo do tal contrato milionário. Depois que sentiu o cheiro do dinheiro grande, virou o amor da vida dela. Eu cheguei mais cedo no café onde a gente costumava se encontrar.

Vi os dois numa mesa no fundo, as mãos juntas, ela rindo para ele daquele jeito que eu achava que era só meu. O bolo de laranja ainda estava quente na minha mão. A Letícia sabia meu tamanho de roupa, meu remédio de enxaqueca, o nome do meu primeiro namorado. E trocou tudo isso por uma fábrica que ela achava que ia virar mansão.

Ela queria me ver cair. Queria o escândalo, a plateia, o meu choro. Mas eu tinha outra coisa guardada. Anos antes, eu tinha desenhado uma peça, a mesma família de peça do contrato que o Rodrigo disputava.

Ironia das ironias. Só que a minha versão era redesenhada, com uma liga diferente, resolvendo exatamente o ponto de fadiga que eu tinha mostrado para o Rodrigo uma vez. Ele me ignorou. Meu chefe topou bancar o projeto e a nossa empresa entrou na mesma disputa que a fábrica do Rodrigo, cara a cara.

Ele não sabia que do outro lado estava eu. Senta comigo naquela sala de apresentação. Eu, de terninho, voz firme, explicando para dez engenheiros do grupo industrial por que a minha peça aguentava o que a deles não aguentava. Falei da fadiga, da liga, do ponto que cede, sem tremer.

A proposta do Rodrigo foi eliminada logo na parte técnica. Exatamente onde eu tinha apontado dois anos antes, na letra torta do meu lápis. O contrato que ia transformar o Rodrigo em homem rico morreu naquela quinta. A fortuna que a Letícia farejou e foi buscar de mão dada num café virou fumaça na semana antes do casamento deles.

Eu vi o rosto do Rodrigo perder a cor. Ele não sabia que eu estava ali, e a Letícia, que me esperava para me ver chorar na frente da festa, ficou pálida quando me viu de pé com o microfone. Mas deixa eu falar do meu trabalho, que é o que eu tenho de mais bonito para oferecer hoje. Essa semana minha equipe ganhou o contrato do grupo industrial, aquele grande.

Foi o resultado de um defeitinho de fadiga que alguém um dia avisou que ia dar e ouviu que era para cuidar do próprio quadrado. O Tomás me esperava na porta do salão. Eu peguei o braço dele com a mão que uma hora antes tremia e agora estava firme, quentinha. Não fiquei para ver o resto, mas o interior é pequeno e a boca do povo é grande.

A fábrica do Rodrigo, sem o contrato, murchou. Comigo, o contrato me pôs como engenheira líder do projeto. O Tomás continua quieto do meu jeito favorito.

Guardei a receita do bolo de laranja, mas faz tempo que eu não faço para dividir com quem não merece.