Enfermeira do Hospital de São Teotónio, em Viseu, parte aos 42 anos

Enfermeira do Hospital de São Teotónio, em Viseu, parte aos 42 anos

Enfermeira do Hospital de São Teotónio, em Viseu, parte aos 42 anos

Quando a notícia chegou ao Hospital de São Teotónio, em Viseu, muitos corredores ficaram em silêncio.

Paula Susana Ribeiro de Almeida Morgado tinha partido.

Tinha apenas 42 anos.

Durante anos, os colegas conheceram-na como aquela enfermeira que nunca passava ao lado de alguém que precisava de ajuda. No Bloco Operatório, onde cada segundo conta e onde a pressão faz parte da rotina, Paula era reconhecida pela serenidade, pela competência e pela forma como estava sempre disponível para apoiar quem precisava.

Mas naquele sábado ao final do dia, os profissionais que tantas vezes ajudaram outros a lutar pela vida tiveram de enfrentar uma dor diferente.

Desta vez, não havia procedimento, tratamento ou intervenção que pudesse trazer Paula de volta.

A mulher que dedicou a sua vida a cuidar dos outros tinha partido.

Pouco depois, começaram a surgir as mensagens nas redes sociais.

Colegas de profissão recordaram a estudante de Viseu que se licenciou em Enfermagem na Escola Superior de Saúde de Viseu. Amigos falaram de uma mulher generosa, dedicada e profundamente querida por todos. Pessoas que trabalharam ao seu lado lembraram a profissional que entrava todos os dias no hospital com o mesmo compromisso: fazer a diferença na vida de alguém.

Mas por trás de todas as homenagens existia a mesma sensação.

Era difícil acreditar que Paula já não estava ali.

Porque Paula não era apenas uma enfermeira.

Era esposa de Cláudio Morgado.

Era mãe de três filhos.

Enfermeira de Viseu morre aos 42 anos. Família pede ajuda para cumprir um  dos últimos desejos de Paula Almeida – Notícias de Coimbra – NDC

Era uma mulher que, durante meses, lutou contra uma doença que apareceu numa fase da vida que deveria ser apenas de felicidade.

A notícia chegou durante a gravidez do terceiro filho.

Quando esperava a chegada de mais um bebé à família, Paula descobriu que tinha uma neoplasia. O diagnóstico já apresentava uma realidade devastadora: a doença tinha metástases.

Num instante, os planos para o futuro mudaram.

As preocupações normais de uma mãe que espera um filho deram lugar a consultas, exames, tratamentos e perguntas que nenhuma família deveria ter de enfrentar.

Quanto tempo restava?

Conseguiria acompanhar o crescimento dos filhos?

Como proteger as crianças de uma dor que ela própria não podia evitar?

Quem esteve perto dela viu a luta.

Viu os dias difíceis.

Viu o desgaste físico.

Viu a incerteza.

Mas viu também algo que sempre fez parte da personalidade de Paula.

Mesmo quando era ela quem precisava de apoio, continuava a pensar nos outros.

Era o mesmo instinto que tinha levado para a profissão de enfermeira.

Cuidar nunca foi apenas uma função para Paula.

Era uma forma de estar na vida.

No Bloco Operatório, cuidar significava estar atento aos pequenos detalhes. Significava tranquilizar pacientes assustados. Significava apoiar famílias que esperavam do lado de fora por notícias.

Paula conhecia bem a fragilidade humana.

E talvez por isso, quando percebeu que o seu próprio tempo poderia ser limitado, decidiu deixar uma última mensagem através de um gesto simples.

Mas completamente inesquecível.

Muitas famílias, perante uma despedida, recebem flores.

Coroas.

Homenagens.

Tributos.

São gestos de carinho, mas que acabam por desaparecer com o tempo.

Paula pensou diferente.

Ela não queria que as pessoas gastassem dinheiro em coroas de flores.

Tinha outro desejo.

Queria que esses contributos fossem utilizados para instalar aparelhos de ar condicionado nas salas da creche frequentada pelos seus filhos.

Durante os dias quentes de verão, as crianças poderiam ter mais conforto.

Mais bem-estar.

Um ambiente melhor para brincar, aprender e descansar.

Mesmo sabendo que talvez não estivesse presente para ver isso acontecer, Paula continuou a pensar nas crianças.

Não apenas nos seus filhos.

Em todas as crianças daquela creche.

O pedido surpreendeu todos os que o conheceram.

Ela não pediu uma grande homenagem.

Não pediu um monumento.

Não pediu nada para si.

Pediu apenas que a sua despedida pudesse transformar-se em algo útil.

Que a tristeza das pessoas pudesse tornar-se conforto para os mais pequenos.

A família partilhou essa vontade numa mensagem que emocionou muitos:

“Não são precisas coroas e palmas, precisamos de materializar o grande amor que a Paula tinha pelos pequeninos, concluindo esta tarefa.”

Aquelas palavras mudaram a forma como muitas pessoas olharam para a despedida.

A pergunta deixou de ser:

“Que flores devemos enviar?”

E passou a ser:

“Como podemos ajudar a cumprir o último desejo da Paula?”

Nas redes sociais, as mensagens de tristeza começaram também a transformar-se em homenagens ao gesto que ela deixou.

Os colegas não recordavam apenas a enfermeira competente.

Recordavam a pessoa.

A mulher que estava sempre pronta para ajudar.

A profissional que tratava cada paciente com respeito.

A mãe que, mesmo perante uma doença cruel, encontrou forças para pensar no conforto de outras crianças.

No hospital, muitos sabiam que a enfermagem exige mais do que conhecimento técnico.

Exige humanidade.

Um enfermeiro acompanha pessoas nos momentos mais vulneráveis das suas vidas. Está presente quando alguém sente medo, quando uma família espera por respostas, quando um paciente precisa de sentir que não está sozinho.

Paula passou anos a oferecer esse cuidado aos outros.

E no momento mais difícil da sua própria vida, mostrou que essa preocupação não era apenas parte do uniforme.

Era parte dela.

A doença conseguiu limitar os seus dias.

Conseguiu roubar planos.

Conseguiu criar uma dor enorme na sua família.

Mas não conseguiu mudar aquilo que Paula era.

Uma pessoa que cuidava.

Uma pessoa que pensava nos outros.

Uma pessoa que queria deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrou.

A morte de Paula deixou um vazio impossível de preencher.

Os três filhos perderam a mãe.

Cláudio perdeu a companheira de vida.

Os familiares perderam alguém insubstituível.

Os colegas perderam uma profissional que admiravam.

Nada poderia substituir a presença dela.

Nenhuma instalação de ar condicionado poderia compensar essa ausência.

Mas aquele gesto tinha um significado maior.

Cada contributo feito em vez de uma coroa de flores seria uma continuação daquilo que Paula sempre fez.

Cuidar.

Ajudar.

Proteger.

Um dia, quando o verão chegar e as crianças entrarem numa sala fresca da creche, muitas delas talvez nem saibam por que aquele conforto existe.

Talvez nunca tenham conhecido Paula.

Talvez nunca tenham ouvido a sua voz.

Mas os seus filhos saberão.

Saberão que a mãe estudou Enfermagem em Viseu.

Saberão que dedicou a vida a cuidar de outras pessoas.

Saberão que era amada pelos colegas e amigos.

E saberão que, quando enfrentou um dos momentos mais difíceis que uma pessoa pode viver, o último pensamento dela não foi sobre si.

Foi sobre eles.

Sobre crianças.

Sobre conforto.

Sobre amor.

Paula não conseguiu escolher quanto tempo teria neste mundo.

Mas conseguiu escolher aquilo que deixaria nele.

E essa foi a sua última vitória.

Porque algumas pessoas deixam fotografias.

Outras deixam bens.

Mas existem pessoas que deixam algo muito maior:

Uma prova de que a bondade continua mesmo quando a vida está a chegar ao fim.

Paula Almeida passou a carreira inteira a cuidar dos outros.

No fim, quando era ela quem precisava de cuidados, deixou uma última lição.

O verdadeiro legado de uma pessoa não está apenas nos anos que vive.

Está nas vidas que toca.

E às vezes, o maior gesto de amor não é uma flor colocada numa despedida.

É o conforto que permanece muito depois de a pessoa partir.